A cidade no campo de visão social
A cidade sempre esteve em conformidade com as pretensões humanas, no que diz respeito a toda sua simbologia, representação e infinidade de informações, que esboçam a transitoriedade da condição da vida humana, que busca incessantemente, sob um gesto natural e mecânico, se adequar ao espaço construído, ocupá-lo e molda-lo de acordo com suas exigências e necessidades. Este mesmo conformismo possui caráter contraditório quando analisamos o resultado de nossas construções e também a maneira como nos apropriamos dos espaços urbanos, que a cada vez mais favorecem a soberania dos veículos automotores nas cidades de forma progressiva e autoritária, afastando lentamente todo o conceito de caminhabilidade que, sob um olhar mais poético, além de proporcionar acessibilidade necessária para deslocamentos livres e confortáveis, sugere, acima de tudo, uma contemplação assegurada do ambiente urbano, uma vez que o nosso contato com a cidade se torna mais íntimo quando caminhamos, pois é através do caminhar que é possível sentir, experimentar e perceber - auxiliados pela nossa ótica - o movimento da vida urbana, assim como os mais diversos contextos de ocupação e utilização dos espaços, onde residências, edifícios, ruas e praças se alinham em um conjunto ainda mais complexo, cada um exercendo a sua determinada função, resultando em um organismo vivo e ativo que concebe a imagem da cidade.
Na obra intitulada “O mundo como vontade e representação” publicada em 1818 pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer, o autor traz um belíssimo pensamento de atribuição universal onde declara que “ Todo homem toma os limites de seu campo de visão como os limites do mundo” e, com base nesta máxima - muito bem ponderada - podemos constatar a extrema importância e influência que o sentido da visão possui no que se refere a percepção da vida e sua relação com o meio, isto é, o campo de visão social e as limitações espaciais e urbanas que variam de um indivíduo para outro, provocando percepções que, naturalmente, despertam sensações que se tornam ainda mais concretas e evidentes quando somadas aos demais sentidos do corpo humano, resultando em uma completude sensorial e singular, que possibilita ao ser humano conceber para si, o que é realidade. Partindo do entendimento de que o campo de visão social é fator determinante para o desenvolvimento dos demais sentidos que melhoram a condição de vida humana - e urbana - , facilitando a compreensão dos limites espaciais, físicos e abstratos, é necessário que todo planejamento urbano contenha esta mesma profundidade de análise, considerando primeiramente o que se revela de modo subjetivo, mas não menos importante: a escala da visão, ou seja, a percepção da cidade através do olhar do indivíduo. Vale ressaltar que, quando o campo de visão é nulo ou inexistente - o que significa uma percepção da cidade através de um deficiente visual - o planejamento urbano é o veículo que conduzirá de forma segura o indivíduo pela cidade, pois, considerando que o caminhar pelas ruas é direito humano básico, a cidade deve ser planejada para assegurar os direitos fundamentais básicos do cidadão e este é um ponto que precisa ser constantemente reivindicado e amplamente discutido em audiências públicas. É necessário considerar, que para ambos os contextos – do indivíduo que enxerga e do deficiente visual – existem fatores a serem previamente observados que vão além das questões da mobilidade urbana, acessibilidade e uma equilibrada distribuição dos espaços. Certamente, a elaboração de um planejamento urbano deve possuir uma abrangência capaz de unificar essas duas realidades, uma vez que se existe a oportunidade de qualificar o percurso daquele que enxerga, é importante que se conceda o mesmo privilégio de contemplação ao outro, e ainda se possível, buscar soluções que tragam a este segundo indivíduo, uma percepção que o permita fazer uma leitura conceituada e apreciativa da cidade, proporcionando a este, uma sensação de pertencimento e uma relação íntima com o meio urbano, assim como um melhor conforto ao se locomover, pois se durante uma caminhada de longo percurso, nossa perspectiva da distância a ser percorrida pode gerar certa angústia e cansaço, o que pensam e sentem aqueles que vivem na escuridão? Este é, além de um triste cenário, na prática também é um modo inseguro de caminhar pela cidade.
A questão da segurança das ruas, no que diz respeito ao receio de circular em ruas aparentemente hostis, é outro ponto fundamental a ser discutido, visto que pode ser reforçado pela própria sociedade, como uma forma de vigilância inconsciente e até mesmo solidária e, isto comumente ocorre em ruas movimentadas como um fenômeno automático e espontâneo, o que nos leva a refletir sobre a criação de espaços de uso misto devidamente distribuídos em uma porcentagem maior na cidade, gerando vida e movimento nos pontos mais monótonos da cidade, evitando talvez, a concentração dos serviços em uma região específica, favorecendo a comunidade como um todo e não apenas a um determinado perfil de usuário, porém, em todos os casos não se descarta a presença de um policiamento constante para o atendimento imediato de casos que envolvam crimes de qualquer escala de gravidade, reiterando também que um espaço ordenado e corretamente planejado é capaz de mitigar as menores ameaças devido aos olhos atentos que vigiam, porém, não devemos nos apoiar somente em nossa espontaneidade natural de observação e vigilância, pois, nesse sentido, a responsabilidade pela manutenção da harmonia e segurança da cidade provém única e exclusivamente do poder municipal, que tem a obrigação de nos garantir caminhos livres e seguros, seja do tráfego de automóveis cada vez mais denso ou da criminalidade que avança em números significativos, afetando diretamente o planejamento urbano, onde ruas tranquilas se tornam hostis e violentas, ocasionando divisões territoriais que consequentemente trazem outros problemas sociais.
Em suma, é indispensável compreendermos que devido a crise que se encontra a sociedade moderna, deve-se avaliar a hipótese de adotarmos, definitivamente, o termo “planejamento urbano sustentável”, como forma de exercício de implementação dessa ideia na sociedade, visto que toda ação nesse contexto deve inclinar-se aos conceitos de sustentabilidade, pois o objetivo que se pretende alcançar, de fato, é uma melhor qualidade de vida, que pode ser alcançada primeiramente pelo indivíduo independente, consciente de sua participação no todo, o que sugere uma mudança comportamental em relação ao consumo próprio, da mesma forma que o poder municipal deve estar buscar meios eficazes e sustentáveis de preservar a cidade e também as relações sociais, considerando a caminhabilidade, como uma forma de nos manter sempre em harmonia com o meio urbano, em comunidade.

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