Pessoas em situação de rua nos centros urbanos: "invisíveis aos olhos da sociedade".
Entender os fatores que levam um determinado indivíduo a morar nas ruas, é uma tarefa tão complexa quanto podemos imaginar. Em uma primeira análise, observa-se um grupo seleto, onde a maioria em fase adulta e meia-idade fazem das ruas a sua morada e dela sobrevivem em condições precárias com total insegurança, sujeitos à violência, suscetíveis às mais variadas doenças e aos fatores mais improváveis que possam ocorrer. Outro aspecto pouco retratado pela mídia é a forma como o morador de rua vem se tornando invisível aos olhos da sociedade, uma espécie de ser incomum infiltrado no contexto da cidade que dela não tira proveito e muito menos participa, ocasionando certo desgaste psicológico, devido ao seu isolamento do meio social. Seguindo por essa linha de raciocínio, estaríamos sugerindo o fator psicológico como abertura para o esclarecimento do problema, o que nos levaria às mais profundas indagações sobre o comportamento humano e o seu papel na sociedade.
A relação
entre o homem e sociedade vem sendo estudada desde os primórdios da história,
desde Edward Tylor e seus conceitos sobre a cultura e o evolucionismo social,
até o sociólogo Émile Durkheim, que faz referências ao estudo do comportamento humano
e sua busca de identidade e pertencimento. Escreveu Durkheim "A construção
do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo
de uma série de normas e princípios — sejam morais, religiosos, éticos ou de
comportamento — que balizam a conduta do indivíduo num grupo. O homem, mais do
que formador da sociedade, é um produto dela".
Partindo deste princípio, estamos tratando o papel da educação na formação do cidadão, e, consequentemente, os efeitos de sua influência sob o pensar e o agir. Durkheim afirmava que a convivência em sociedade seria impossível sem a educação, uma vez que o adulto já inserido ao meio social intervém diretamente na geração mais jovem gerando um ciclo de informações, onde o primeiro sujeito exerce influência sobre o outro, porém, este mesmo sujeito atuante, também já foi o influenciado.
Sendo o cidadão um produto da sociedade, e a sociedade um conjunto de pessoas que se organizam entre si em prol dos mesmos interesses, imediatamente enquadramos o morador de rua como um elemento que pertence à sociedade, e que possui todos os direitos e deveres como todo cidadão. Logo, ele é o cidadão. No entanto, a educação oferecida a uns não é acessível a outros, em particular às pessoas de classe baixa, assim como a saúde, o trabalho, e até mesmo o lazer. A própria sociedade promove a exclusão através da discriminação e outros fatores, o Estado favorece a fragmentação dos direitos, e por fim o capitalismo que agrava ainda mais este cenário. Observa-se então, a dimensão deste tema e as discussões que emergem a partir da busca pela compreensão do fato.
A
Constituição Federal de 1988 estabelece os direitos e deveres do cidadão, assegurando
que tenha uma vida digna e igualitária. O artigo 5º diz que “Todos são iguais perante a
lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” (...).
Visivelmente,
o morador de rua não usufrui dos mesmos gozos que os demais indivíduos. Sendo
assim, sua cidadania é comprometida pelos limites impostos pela própria
sociedade. Os direitos que deveriam ser fundamentais estão sendo esquecidos e a
figura do morador de rua banalizada, até mesmo aceita, e esta aceitação não
gera resultado positivo nem para o morador de rua e nem para a sociedade,
tampouco contribui para o convívio social. O morador de rua permanece inserido
no contexto urbano e representa a própria imagem da sociedade.
Vale
ressaltar a linha de raciocínio que desenreda esta análise, lembrando que não
está fundamentada em afirmações, mas em reflexões acerca de fatores que
poderiam auxiliar na compreensão do que leva um indivíduo a morar na rua.
Deve-se questionar como o fator psicológico e a boa ou má educação influenciam
o modo como o sujeito pensa e reage aos fatores externos causados pela
sociedade, como por exemplo, a indiferença.
Analisando a fundo estas questões poderemos encontrar a raiz
do problema e por fim desenvolver métodos mais eficazes para enfrentar a causa
e devolver a cidadania à população em situação de rua.
Autor: Arq. Vagner Rosário

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