Ensaio sobre a arte de projetar em arquitetura
Todo aquele envolvido em alguma atividade laboral,
independente de um título ou área que representa, mas que busca através de sua
ocupação elevar a rentabilidade acima das virtudes do trabalho realizado com devoção
e que considera somente o lucro como objetivo principal, está fadado a uma vida
medíocre, desprovida de um propósito de verdadeiro valor, pois sua ocupação é
tão infrutífera quanto desonrosa perante aqueles que realizam a mesma atividade
com ardor, respeito e comprometimento. Embora este primeiro acredite cegamente
que esteja realizando algo grandioso, sua grandeza equivocada se compara a um
delírio que se agrava ainda mais quando ocorre no coletivo, intensificando
ainda mais esta esfera de futilidades e trabalhos improdutivos, onde suas “grandes
obras” acabam por enriquecer seus bolsos, mas empobrecem o seu espírito.
No campo da arquitetura, projetar apenas pela remuneração é
ainda mais grave e intolerável, pois a arquitetura é uma arte nobre, que exige
a mesma nobreza de espírito daqueles que a empreendem, pois na arte se encontra
vida e movimento, já na remuneração como finalidade existe apenas o desperdício
de tempo e de energia, onde todo esse falso engajamento se confunde com a
inércia, por se distanciar das qualidades morais e intelectuais que se espera
de um bom profissional e, neste ponto a ociosidade do indivíduo é até
considerável, visto que é mais respeitável e honroso que ele permaneça inerte
quanto a sua obra, do que denegrir nossa classe produzindo simulacros de
projeto, enganando a si próprio e principalmente aos seus clientes, com todos
aqueles gracejos e discursos de contemplação sobre o que é belo e o que está em
voga, ocultando através de todo esse teatro, a sua hipocrisia e sua insensibilidade
para com a verdadeira arte e, não devemos desconsiderar que todo seu processo
de refinamento não passa de mero capricho.
A verdadeira arte, ou melhor, a arquitetura autêntica e
legítima surge de forma clara em dois momentos: o primeiro ocorre quando a obra
finalizada representa um diálogo íntimo entre o homem e a natureza, e a
representação desse discurso alcança uma linguagem universal das impressões, do
mesmo modo quando se projeta uma edificação sustentável, onde o projeto se
expressa por si só, e o usuário sensibilizado pela inevitável comunicação da
arte, de imediato traz o seguinte questionamento: Estou dentro ou fora?. Eis
o que se deve buscar acima de tudo, promover estas impressões em todos os
campos da arquitetura, esgotando todas as suas possibilidades, seja na
arquitetura de interiores, na arquitetura hospitalar, no paisagismo ou nas
demais áreas. Para chegar a este ponto, o arquiteto não deve se limitar apenas
ao conhecimento específico devido a profundidade que é exigida dele e que neste
caso muito se assemelha com a vocação para a profissão, que é constituída intimamente
de sentimentos elevados de caráter humanitário e altruísta, pois o arquiteto
não projeta para si, mas sempre para o outro, sempre em contribuição para o bem
estar do próximo, o que lhe traz como retorno uma satisfação genuína de efeito
mais duradouro que em nenhum aspecto se compara com o ego que é frequentemente momentâneo
e efêmero.
E o segundo instante em que essa arquitetura surge – e
definitivamente é o mais importante- ocorre durante o processo de criação do
projeto, caracterizado por uma investigação capaz de fundamentar toda a sua experiência
e toda sua bagagem profissional e até mesmo acadêmica, transcendendo o senso
crítico e transformando o processo numa espécie de embriaguez pela arte. E tal
embriaguez é decididamente necessária quanto ao ofício, pois demonstra mais do que
comprometimento e zelo, pois a intenção do artista se inclina obstinadamente ao
que é mais sublime, provocando nele tamanha exaltação interior que remete a um
delírio imutável e permanente enquanto projeta. Tomemos como exemplo as grandes
obras literárias e então observemos a substância dos clássicos antigos onde é possível
compreender todo esse encanto do artista pela sua obra. O mesmo encanto pode
ser encontrado no processo de criação da obra Casa da Cascata, construída
em 1939 pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright e, da mesma forma, identificamos
o mesmo método em muitos outros grandes ícones da arquitetura clássica que
transformaram o modo como encaramos as cidades, as casas e os ambientes em que vivemos
através dessa linguagem universal das impressões anteriormente mencionada neste
ensaio.
Tendo em vista seu caráter híbrido que circunda as ciências
humanas e exatas, a arquitetura também pode ser considerada uma ciência social,
– e talvez este seja seu atributo de maior peso- que portanto, merece maior prestígio
exclusivamente por parte dos profissionais da área, compreendendo a magnitude e
importância do ofício, assim como o seu papel no contexto social, onde lhe é conferido
a oportunidade e obrigatoriedade de contribuir com a sociedade através de suas competências.
O indivíduo que escolhe ingressar na arquitetura, ou melhor,
na arte nobre, deve primeiramente seguir a máxima que é normalmente atribuída ao
filósofo grego Sócrates, que diz: “Conhece-te a ti mesmo”, e a partir dessa
reflexão é fundamental que este reveja seus princípios e valores, para que posteriormente,
após longos anos de vivência acadêmica, não seja como aqueles que almejam
simplesmente a remuneração e o status, agindo como aquele que entrega a esmola
ao pedinte e aguarda pelos holofotes e o prestígio do grande público, porém, vale
ressaltar que estas quando lhe alcançam, - a notoriedade, o status e até mesmo
o prestígio- vêm sempre de um modo sutil e natural por consequência de seus
esforços, por puro mérito, mas observe que sempre lhe serão indiferentes e por vezes
insignificantes e até mesmo indesejáveis, pois o que lhe impulsiona de fato, é
a propagação de sua mensagem através de sua obra e o reconhecimento da minoria
que têm olhos para enxergar o que realmente é belo e grandioso, pois a sua arte
não é para todos os olhos.

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