As Sociedades de Risco, o Mundo Líquido e os desafios dos planejadores contemporâneos
O excesso de consumo que estampa o modo de vida da sociedade moderna,
é um dos fatores que mais caminha em direção oposta às tendências sustentáveis
que vêm surgindo como forma de apelo da minoria que compreendeu não somente a
brevidade da vida, mas também a finitude dos recursos naturais indispensáveis à
nossa subsistência, que representam a fonte vital da preservação e manutenção
da vida humana.
Os aspectos negativos da sociedade atual, em toda a sua
abrangência, exprimem as ideias provenientes dos conceitos “sociedade de risco”
e “mundo líquido”, de acordo com as concepções do sociólogo alemão Ulrich Beck
e sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, respectivamente, pois ambos os
termos pertencem às dimensões humanas e correlacionam-se de tal modo, que não
seria incoerente imaginarmos uma reformulação que os estabelecesse como uma
“sociedade de risco líquida”, que representa de modo ainda mais elementar, a uma
sociedade de risco inserida no mundo líquido. Esta breve experimentação nos
permite conjecturar que ambos os termos se afirmam, ou melhor, justificam-se
dentro do que sugere este ensaio que é observar de longe -e é necessário que
seja observado de longe- os efeitos do comportamento da sociedade atual para
com o meio urbano, pois assim como escreveu José Saramago, “é preciso
sair da ilha para ver a ilha, pois não nos vemos senão saímos de nós” e
o mesmo compreendeu Émile Durkheim ao escrever que “é preciso sentir a
necessidade da experiência, da observação, ou seja, a necessidade de sair de
nós próprios para aceder à escola das coisas, se as queremos conhecer e
compreender”, de fato, é somente através desse modo alheio -e em parte
indiferente- que se pode promover uma análise justa e imparcial acerca das
consequências das ações humanas.
O homem representa o risco a si mesmo e isto ocorre em
qualquer ocasião, esteja ele a sós ou em comunidade. Estando ele a sós, é
corrompido por seus pensamentos subversivos. Em comunidade, sua natureza o leva
sempre a consumir e ocupar em grande escala. Quanto a isso não há objeções
devido a ordem natural dos eventos, porém quando o consumo é desenfreado,
converte-se em destruição e o mesmo pode-se afirmar em relação às ocupações,
que se forem concebidas de modo desordenado, transformam-se no que chamo de
caos urbano, um reflexo do modo de vida na cidade contemporânea. Partindo dessa
observação, é necessário que haja o equilíbrio entre os modos de consumo e de
habitação, uma vez que o futuro das cidades tende a obedecer aos métodos
sustentáveis de produção, pois não há outra forma de garantia da vida futura
senão a aplicação imediata destes métodos com intuito de reduzir os riscos e
impactos ao meio ambiente já existentes e não superados. É possível considerar,
porém com certo cuidado, que existe uma linha muito tênue entre um mero
devaneio e um contexto filosófico onde se pode idealizar que a “cidade é
como um filho”, este concebido por nós e que devemos mover todos os
esforços para garantir sua preservação, afinal, se não houver uma sensibilidade
dessa magnitude, como haverá revolução interior capaz de mudar a forma como
lidamos com o meio urbano senão tomando-o como nosso mais belo e sublime
projeto? Embora muito se tenha produzido no campo das reflexões urbanas, vemos
que as mais variadas análises, estudos e provocações, enquanto estas apenas
permanecerem na esfera utópica, mesmo que formuladas pelos mais renomados pesquisadores,
não alcançarão a superfície e, o que se espera de fato e obviamente o que se
pretende é que além de emergirem, se propaguem nas mais diversas mentes com
intensidade de poder revolucionário, capaz de estabelecer uma nova cultura, de
caráter definitivamente sustentável e de uma linguagem universal. E este é o cume
que devemos alcançar com demasiado empenho. Recorrer a outras alternativas que
fogem a esta missão global é um gesto extremamente insano devido as atuais
circunstâncias que vivenciamos no meio urbano. Vale tomar como exemplo um cego
que, conhecedor do seu percurso habitual e rotineiro, caminha com tranquilidade
e plena convicção de que chegará ao seu destino, enquanto outro acredita tão
fielmente em uma ideia que ao vislumbrá-la, sente que pode até mesmo tocá-la e
proclamá-la como revolucionária, o que não deixa de ser uma forma de cegueira,
porém, sabemos que este não chegará a lugar algum, mesmo quando guiado por um grupo
numeroso de cegos independente de sua categoria, pois assim como ocorre na
aritmética, multiplica-se um milhão de ideias por zero atitudes e o que se
obtêm? Absolutamente nada.
É importante que nos perguntemos neste momento de que é constituída
uma crise, estritamente as de origens que rementem a tudo aquilo que provém da
ação do homem enquanto sociedade perante o meio urbano, pois esse
questionamento nos revela não somente a substância desses flagelos, como também
o verdadeiro agente causador de modo bastante óbvio e transparente. Portanto, há
dois caminhos possíveis para se decifrar uma crise urbana, o primeiro é através
das metodologias tradicionais já conhecidas, onde são realizados os mais
diversos levantamentos técnicos acompanhados de diagnósticos precisos. E o
segundo, e talvez mais “emocionante” – e não menos importante, vale salientar- é
através de uma investigação com viés filosófico acerca dos mais diversos
problemas das cidades e que venha a resultar numa análise mais aprofundada, obtendo
uma compreensão que se aproxima a “uma circunstância de causalidade inicialmente
humana que se desenvolve a ponto de se manifestar no meio urbano com potencial
de alcance global e catastrófico, onde a vontade humana se revela irracional, inconsequente
e insana”. Quanto às crises urbanas, é válido recordar que temos a habilidade
instintiva de nos adaptar aos mais diversos eventos dessa mesma ordem, e talvez
isso se deva às experiencias que tivemos ao longo dos anos após grandes eventos,
como por exemplo a Segunda Guerra Mundial, a Crise do Petróleo da década de 70 e
outros acontecimentos históricos que culminaram para o que podemos chamar de “despertar
ecológico” ou “despertar da consciência ecológica”, onde a
sociedade passou a avaliar os impactos de suas atitudes para com o meio urbano.
Exemplos como estes apontam que, eventualmente, toda mudança de comportamento é
posterior a uma crise e, quanto mais grave e impactante esta for, maior será o
efeito de conscientização na sociedade, pois o fator que predomina aqui é o temor
de vivenciar novamente tais acontecimentos.
Portanto, diante do receio de experimentar o caos urbano em
uma escala ainda não perceptível pela sociedade moderna -mesmo este sendo um
fato anunciado em vista do cenário que se especula- é prudente que se adote
medidas que estimulem a manutenção e conservação do mesmo despertar dessa consciência
ecológica, que inevitavelmente entrará em conflito – e é importante que haja o
conflito de ideias no que tange a revisão dos conceitos sociais e de consumo- com
os atuais paradigmas da sociedade líquida, que representam a mutabilidade das
relações e dos conceitos estabelecidos. E toda essa instabilidade que afeta primeiramente
a estrutura social nos torna ainda mais transitórios e efêmeros do que já somos
por natureza, pois o entendimento de que “nada é feito para durar”
compromete até mesmo a arquitetura das cidades que é desenvolvida sempre com
intuito de resolver os interesses da sociedade de acordo com suas necessidades
principais e imediatas, deixando bem claro que o desafio dos atuais planejadores
basicamente se resume no empenho em conceber novas formas de morar que possam se
sobrepor a toda essa evolução continua e incerta, cientes de que dedicando-se a
esta tarefa complexa, poderão estar envolvidos direta e indiretamente num “processo
de criação líquido”, movidos pela inevitabilidade das relações sociais contemporâneas
e pela forte imposição de suas ideias imediatistas e revolucionárias.

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