"Urbano, Demasiado Urbano": um breve ensaio sobre o contexto urbano atual
Nietzsche em “Humano,
Demasiado Humano” faz um rompimento com os conceitos metafísicos de sua
época que idealizavam a transformação da cultura Alemã através da arte. Sob uma
nova percepção acerca destes conceitos, passou a combater a metafísica através
da ciência, compreendendo a subjetividade humana e valorizando aquilo que é
intrínseco ao homem, isto é, sua natureza, sua essência de maneira pura e
livre de simbologias.
A expressão “Urbano, Demasiado
Urbano”, título da obra de Javier Viveros, lançada em 2009, aborda o
problema da poluição das cidades e faz uma relação do modo de vida moderno com uma
espécie de “alucinação em marcha”. Mais adiante, BOCAYUVA(2010) resgata a
máxima, e assim como Viveros, faz a seguinte reflexão: “Atordoados pela profusão de informações,
signos, símbolos, publicidade e objetos necessários para uma adequada
participação no modo de vida cotidiano, somos rapidamente capturados para
pensar a cidade através das metáforas da segunda modernidade, ou seja, as do
“mundo líquido”, as da “sociedade de risco”.
É evidente que não há, numa primeira análise, uma relação
direta e contextual entre a expressão original e a que foi apresentada
posteriormente pelos autores, pois enquanto a primeira prioriza a valorização da
natureza humana, a segunda questiona os efeitos oriundos dessa natureza que
ocupa de forma desordenada e excessiva o espaço urbano, tornando-o demasiado
urbano. E é justamente por meio desta investigação que se revela o que podemos
chamar de “síntese do pensamento humano e urbano”, consequentemente,
onde os contextos opostos se cruzam, resultando em reflexões acerca da forma de
existir e de ocupar determinado espaço, torna-lo urbano, civilizar-se.
Ao pensarmos a cidade no contexto contemporâneo, podemos
antecipadamente adotar um olhar conservador como forma de experimentação do
novo, que é a compreensão do espaço urbano como uma “manifestação da vontade
humana”, que emerge da consciência e exterioriza-se no modo como ele vive e
ocupa a cidade, transformando-a em sua própria imagem e representação simbólica
universal.
Essa nova perspectiva nos permite estabelecer distância
segura quanto aos julgamentos que criamos de forma recorrente quando eventualmente elaboramos
qualquer discurso, breve ou circunstanciado, do cenário atual das cidades. Admitir
o fato de que o desenho da cidade atual é fruto de nossa vontade, seja de
consumo ou de mera existência, é reconhecer a priori, que somos peças
constituintes do mesmo organismo vivo que caminha, certamente, à uma desordem
urbana de escala maior que exigirá soluções cada vez mais desafiadoras e
inovadoras, devido ao grande impacto que nossa ocupação gera ao meio urbano.
No que diz respeito aos julgamentos, é prudente presumir que
produzem efeitos pouco significativos, uma vez que estamos a julgar a cidade,
estamos a avaliar a nós próprios, pois tomando como partido a definição de
MOTA(1999), o meio urbano é composto não somente pelo seu “sistema natural”,
que envolve o meio físico e biológico, mas também pelo “sistema antrópico” representado
pelo homem e suas atividades, logo, somos parte do urbano e, inevitavelmente,
toda nossa forma de ocupar por menor que seja, acaba por resultar num
determinado impacto e cabe a nós avaliarmos nossas atitudes perante o meio em
que vivemos e o modo como concebemos nossas edificações que irão
individualmente moldar a imagem da cidade.
Quanto aos desafios iminentes em vista dos problemas das
grandes cidades, não se pode afirmar com total convicção que o futuro das
grandes cidades e da condição humana será absolutamente crítico, dramático e
insensato, tendo em consideração apenas o que se observa de adverso no presente.
Esse tom pessimista nos afasta do que é sugerido neste breve ensaio, que se
resume basicamente em compreender a atual condição da cidade, buscando formas
de habitar de modo que nossa natureza seja mantida e, não há definitivamente, outra
forma de ocupação que tenha tamanho comprometimento e potencial transformador como
as ideias de desenvolvimento sustentável que progressivamente vêm ganhando
espaço nas grandes conferências internacionais, particularmente as assembleias
da ONU, que durante uma conferência em 2015 que reuniu 193 países, com o
intuito de promover a elaboração de uma agenda de metas globais a serem
alcançadas por todos os países a fim de garantir a condição humana e preservar
o meio urbano, resultando na criação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS).
Em suma, vale reconhecer que esta atitude representa um gesto
apelativo e mais que necessário para que se promova, primeiramente, uma mudança
significativa na consciência humana, que tem a capacidade de se converter a
longo prazo em novas possibilidades, novos comportamentos e em novos modelos de
habitação, reformulados e transmutados em ações menos agressivas e mais
progressistas, que venham a contribuir para a preservação de nossa
singularidade e também na preservação do meio urbano, tornando-o então,
demasiado urbano, porém sustentável.
Autor: Arq. Vagner Rosário

Comentários
Postar um comentário